14noventão é assim

a máscara tornou-se pesada demais.

decidi a muito tempo que confiável é não confiar em ninguém

e sempre estar pronta para se virar sozinha.

segui o caminho do auto-didatismo, da fuga pela literatura, arte, música…para assim sentir-me completa, acolhida…mas num mundo que acabou sendo por demais racional. Apaixonei-me pela perfeição matemática, pela previsibilidade física e até, vejam só, pela linearidade da história. Vivi sentimentos e emoções não experenciados pelo mundo da literatura… senti as tragédias e dramas sempre num panorama daquele que observa, mas pouco sente. ‘o poeta é um fingidor’… meu amor platônico tantas vezes relido.

Vivi nesse mundo ideal sem contato e trocas humanas até o dia que soube que estava grávida: um filho era o atestado de que eu não era um robozinho sem sentimentos vivendo num mundo perfeitinho e previsível.

o filho tornou-me humana trazendo-me medos, dores, planos desfeitos.

o filho preparou-me para a luta: preconceitos, novos caminhos, refazer-me.

o filho mostrou-me que preciso sim de sentimento, de afeto, de cuidado.

a esfera de humanidade que o filho trouxe me fez bem [mas só percebido após ter ficado muito, muito mal]

hoje sei que o filho crescerá, seguirá seu rumo, seus caminhos.

por isso a máscara tornou-se pesada demais.

hoje percebo que preciso sim ser cuidada. percebo o quanto é solitário caminhar sozinha e conquistar. vi o quanto é gostoso compartilhar vitórias e decepções.

porém é difícil largar mão de 25 anos de história…e uma história construida de muita solitude… em geral, não gosto de receber ajuda… gosto da minha máscara de independência e perfeccionismo. não sei ainda o que fazer quando a máscara ruir de vez.

mas sei que não aguento mais seu peso.

nada mais importa, afinal. minhas mentiras, meus fantasmas, minhas amarras.

quero permitir-me o conto a cada dia.

viver o hoje

e nada mais.


  1. 1 Marcela OrtolanNo Gravatar15 nov 2007

    É… entendo bem o que você diz, Thahy… é mais fácil carregar a mascara no começo. Menos doido, pelo menos no começo. Mas depois vai ficando mais pesado, mais triste… e qual o sentido disso tudo se vivemos para carega-la por fim?

    Beijos

    ps.: coincidentemente, vi uma peça de teatro que era uma releitura da peça Entre Quatro Paredes do Sartre, celebre pela frase “O inferno são os outros”. O nome da peça que vi? “Então é assim!” bjos

  2. 2 thahyNo Gravatar15 nov 2007

    nossa mar…

    amo a peça, o sartre e esta frase

    sintonia telepatica mesmo…

  3. 3 Juan AntonioNo Gravatar05 abr 2009

    Esta tarde lendo um dos seus poemas,

    http://thahy.com/intimo/poesias/experiencia/#respond

    pensei num texto do Angel Gonzalez, poeta español, que sempre vem comigo…

    http://boamorte.tumblr.com/post/70167240/para-nada

    Melhor o hoje, porque ao final, como Gonzalez diz, nada fica, fumo suas obras e cinzas seus factos… Mas seu coraçao (esse nao tem máscara) que fica com eles…

    Grande tarde de Domingo de visita no seu blog,

    Obrigado,

    Até mais!

    Juan Antonio’s escreveu recentemente: Llegó el deshielo…

adoraria saber o que voce achou:




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