[por frater macaco de três cabeças]
A existência terrena é basicamente uma interação consigo mesmo e com outras pessoas em diversas situações na qual o objetivo do habitante do mundo por trás do mundo, o Mago, é desenvolver-se e tornar-se alguém melhor. É a transmutação do chumbo do Ego no ouro da Essência.
Entretanto, é fato que a interação com o mundo profano, em geral, nos mostra exatamente o nosso pior, seja levando uma fechada no trânsito, chegando atrasado por conta de um congestionamento, tomando uma bronca do chefe ou sendo injustiçado pelo mundo em geral.
Diante dessas circunstâncias sou levado a acreditar em varias possibilidades.
Levado pelo instinto natural de proteção, o ego, ao receber o que acredita ser uma ofensa, um ataque direto a sua integridade, uma invasão a sua barreiras pessoais, ativa o que parece ser uma espécie de sistema imunológico, uma enorme quantidade de energia é liberada a partir desse momento então ele passa a responder por puro instinto exteriorizando ou interiorizando essa energia.
Quando interiorizada, essa energia destrutiva pode gerar num curto prazo um mal estar psíquico ou até mesmo físico, uma serie de pensamento auto sabotadores e destrutivos gerando uma serie de reações que vão exatamente à contramão do que é o objetivo da existência. Em geral a interiorização dessa energia torna o sujeito mais amargo ou desiludido, na maioria dos casos, sem força suficiente, coragem suficiente ou a fibra moral necessária para fazer o que é necessário, na melhor das hipóteses se tornará um reclamão, vítima suprema de tudo e todos, na pior um homem destruído sem esperança, amargurado a ponto de gerar dentro de si a doença que lhe tomara a própria vida.
Quando exteriorizada essa energia destrutiva se manifesta sempre de maneira doentia e pérfida. Seja da maneira direta ou indireta.
Quando direta a resposta é imediata, o ego se vale das ferramentas que estiverem a sua volta para atacar, variando dentro da personalidade de cada ser humano e da natureza da ofensa, esse ataque pode ser algo como uma ofensa trocada, na melhor das hipóteses, algo como um gesto mal educado ou alguma palavra de baixo calão, e dai pra pior, vicioso como é o ego tende a apelar sempre, à medida que o nível, não da ofensa em si, mas de como ela reverberou no ser, quanto mais forte ela reverbera a ofensa, mais baixo o ego desce, e dai em diante, encontramos todo o tipo de ofensa que envolva o que ha de pior na humanidade, preconceitos, discriminação, sexismo, chegando até as raias de se usar de segredos que lhe foram confiados para revidar a ofensa, gerando um ciclo cada vez maior de raiva.
Infelizmente não raro, a ofensa ao ego gera uma resposta física, mesmo sendo verbal, a ofensa pode vir a gerar uma manifestação no físico da vontade de destruir o que lhe feriu, o ego então energizado pela raiva e pela ignorância, parte em busca, não de uma reparação, mas do desejo puro e simples de demonstrar ao mundo que ele não é nada daquilo, que ele é, mas não quer que o mundo veja, ou que sendo ou não, não importa, o ego é supremo e não deve ser maculado.
Imbuído por essa vibração, a confrontação física é inevitável, um olhar desafiador pode virar uma facada, um esbarrão uma briga generalizada, e uma agressão física ser respondida com bala.
Quando exteriorizada de forma indireta, temos um caso muito claro do ego se transformando em senhor e não em servo, a partir do momento da ofensa, o ego passa a tomar conta, a pessoa se entrega ao desejo de que ele repare o mal que lhe foi feito, aqui então temos as grandes vinganças, as sabotagens, tudo o que é pérfido e mendaz.
Desnecessário dizer que em todos os casos acima, nada será resolvido, o ego ainda que destrua a fonte da ofensa original, se encontrara partido, pois por mais que tente se convencer de que a ordem foi reestabelecida, bastara que a memória volte ao momento da ofensa original para que os mesmos sentimentos se manifestem, só que agora sem a origem para ser atacada, passa então a direcionar essa energia aleatoriamente em tudo a sua volta.
É interessante notar que na maioria absoluta, e não em sua totalidade uma vez que toda generalização é burra, quanto maior a energia desprendida para ofender, revidar, ou agredir mais frágil é o ego. Forte em seu domínio sobre o Eu, e debilitado como estrutura do ser, como uma estrutura que foi projetada para ser pequena compacta e de uso restrito, e que, no entanto é erguida até as alturas e passa a ter as mais diversas aplicações, o ego inflado é instável, quanto maior, maior o risco de quebra ou danos a sua estrutura.
Qual então deve ser o caminho para transformar um ego tão enorme e inútil quanto um castelo de cartas, em algo pratico e útil como um deck de tarot ?
Preencher o espaço do ego com o Vazio.
O vazio é a ausência de ego, dos pensamentos mundanos, das coisas fúteis, das preocupações com o que você é com o que você tem, com que você fez, deixou de fazer, fará, tem que fazer, com aas pessoas a sua volta, com a vida delas, em geral com o mundo inteiro que provoca as reações que vimos acima.
O vazio é sereno, calmo, tranqüilo, desprovido de símbolos, signos e significados, esta alem, ele é por si só.
Quando desenvolvido esse vazio ele poderá ser preenchido pelo que acreditamos ser o necessário para a Transmutação do chumbo em ouro, compaixão, amor, benevolência.
Metaforicamente ao desenvolvermos o vazio em Malkuth, ele será preenchido por Tipheret, ao fazê-lo em Tipheret, será preenchido por Kether, e ao fazê-lo em Kether chegaremos a Ain Soph Aur e assim retornando as manifestações de existência negativa dentro da Arvore da Vida da Cabala.
Calma, isso é lição de casa para bastante tempo. E por bastante tempo eu quero dizer, não tente contar, aliás, não tente nem pensar sobre isso.
Vamos voltar à parte pratica.
E não existe nada mais pratico do que a Física Newtoniana, basicamente dentro das leis de Newton, as relações entre forças exigem DOIS entes físicos, ou duas partes do mesmo ente, e isso é absolutamente vital para entendermos a aplicação pratica do vazio.
Entre mais as leis Newtonianas descrevem que sói se detecta uma força através de seus efeitos. Quando uma força é aplicada, esta produz trabalho e transfere ou remove energia do objeto sobre o qual atua desde que o objeto se mova de forma paralela à força aplicada.
E como trabalhar esse conceito dentro da nossa vida e nossas interações?
Quando um não quer, dois não fazem.
Esse conceito simples é tão absolutamente profundo que é o cerne de toda essa idéia.
Lembre-se que enquanto não dominar a si mesmo, você pode ser ofendido a qualquer momento, e essas idéias devem ser utilizadas na superação dessa ausência de domínio, quando se tornar senhor de si, você entendera que você nunca poderá ser ofendido, a menos que você permita, porque o ofensor não esta dentro de você, ele simplesmente gerou a força, mas é você através dos seus processos mentais que torna aquilo ofensivo.
Você já viu algum boxeador socando o ar? E treinando em um saco de pancadas?
Existem sim treinamentos físicos, os treinos livres, que não envolvem nenhum tipo de aparelho externo ao corpo humano, entretanto por experiência própria afirmo que é o pior tipo de treino em termos motivacionais, e ai esta a chave para destruir qualquer possibilidade de deixar o ego tomar o controle.
Quando se treina em um saco de pancada, ele é pesado, e embora absorva os golpes, fica balançando pra La e pra Ca, instável, caótico, quanto mais se bate nele mais ele se mexe, cada vez que ele responde a um golpe seu, a vontade de projetar mais e mais energia a cada golpe aumenta.
Socar o ar não surte efeito, não há resistência, sem força contrária ou um ente físico para receber essa energia seu soco terá como único efeito cansá-lo, desanimá-lo ou se você usar força demais, uma distensão muscular.
Comece com as coisas simples, perder uma chave, bater o dedão do pé. Ai passe para as coisas medias, uma fechada no transito, não achar vaga em estacionamento, um arranhão no automóvel, um cliente (ou paciente) que extrapola seus limites.
Isso não acontece da noite pro dia, mas cada vitória desde o não xingar o universo ao martelar o dedão ou perder o farol verde, deve contar, como uma vitória enorme, porque você esta vencendo a si mesmo.
Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível, você conhece essa frase, de Giovanni Batista di Pietro Bernardone, o São Francisco de Assis, agora vamos buscar a sua faixa preta zen.
O nível avançado dessa lição são as duras ofensas, as criticas injustificadas e por fim as agressões físicas.
O conceito é o mesmo, mas essas necessitam de um espaço enorme dentro de você para serem anuladas, lembre-se sempre do soco atravessando o ar e não encontrando nada, imagine um jogador de futebol que ao aplicar sua força máxima na bola, erra o chute e acerta o vazio, ele cai.
Pois é isso que deve acontecer com aqueles que o ofendem e criticam, eles devem cair no seu vazio, atingir o vácuo, sua presença não devera reverberar em você, suas ações são desprovidas de significados e, portanto não existem em seu mundo.
Quando alguém acorda atrasado de manhã, fica bravo, sai dirigindo de maneira irresponsável e fecha outro sujeito que a partir de então, fica transtornado, chega à empresa para trabalhar e desconta em sua secretaria, que passara o dia inteiro de mau humor e sem render absolutamente nada no serviço, ela vai maltratar cada um que com quem tratar nesse dia, ela vai bater a porta ao sair com tanta força que seu colega de trabalho que foi espezinhado o dia inteiro, tomará isso como uma ofensa que vai lhe despertar uma dose cavalar de amargura ao ir embora, correndo até o elevador da empresa ele vai esbarrar em quem ele acredita ser um Zé Mané qualquer, e tomando o ultimo lugar no elevador que seria do sujeito que ele empurrou, o encara e diz o que é que foi? Algum problema? E o mesmo lhe responde não senhor, o senhor está com mais pressa do que eu faça uma boa viagem até sua casa, com um sorriso tão profundo, com um amor tão exuberante, com um vazio tão infinitamente preenchido, que o ofensor não vê outra saída, absolutamente desarmado e pasmo, só consegue responder com um sorriso amarelo de quem esta muito sem graça lhe dizendo obrigada.
O Vazio é infinito, deixe que o infinito tome conta de você e se torne infinito, esse infinito há de abraçar o mundo, não se entregue, ao socar o ar, o lutador fica com cada vez mais raiva, antes de se cansar ele bate com mais força, não permita que ele lhe encontre, pois não importa se é um apelido jocoso ou um soco, se uma força não encontrar nada em seu caminho, não surtira efeito.
Isso não é fácil, mas nada do que vale realmente a pena, o é.
Faze o que tu queres
Há de ser o todo da lei.
Fique com meu presente pra você:
Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama. Todos os estudantes se manifestaram contra a idéia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato de que o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram: ‘Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?’
‘Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?’ – perguntou o Samurai. ‘A quem tentou entregá-lo’ - respondeu um dos discípulos. ‘O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos’ – disse o mestre. ‘Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir… ‘ [Conto Zen]






Perfeito!!!…..
Cabe a nós a mudança interna e, consequentemente, a externa!!!
Concordo com a argumentação, com uma ressalva…
Não devemos confundir a palavra [conceito] VAZIO com INERCIA ou ainda DESCASO COM A VIDA ALHEIA…
Devemos lutar e agir para nos aprimorar como pessoas ao nos relacionarmos e influenciarmos positivamente nosso ambiente…
A era das revoluções pelas armas passou… Devemos revolucionar-mos como pessoas!!
Que venha a Era dos Pensadores Livres!!!!
:D
Bom dia linda.
Obrigado pela generosidade.
A linguagem visual do texto ajuda muito na construção dessa “bussola” para os marinheiros…
Obrigado e parabens
Muito bom o texto!!! Essa história do samurai então traduz tudo perfeitamente, mas termos como ego, ID, Eu, self, etc. geralmente me geram algum tipo de conflito no entendimento. Sei que no oriente as pessoas são educadas para anularem o ego e no ocidente são educadas para valorizarem o ego, o que me leva a pensar coisas:
*Cheguei a ler que o ego é algo que adiquirimos com o tempo através das pessoas a nossa volta (ego:quem acreditamos ser através do que os outros dizem), mas ao meu ver parece que é algo que faz parte da nossa mente, um tipo de função psicológica, se é o ego que faz com que nos reconhecemos no espelho como uma pessoa singular, não me parece sadio anulá-lo(se for o ego).
Pensar nesse vazio que você mensionou acho importante no sentido da história do samurai, ficar “zen”, não se abalar. Mas pensar em anular o ego completamente me faz pensar se não é a lógica do pensamento dos monges ascetas, o que fugiria a lógica da existência que é a interação entre eu comigo mesmo e eu e as pessoas como você disse.
Tem um episódio beeem loko do Neon Genisis Evangelion, acho que um dos dois últimos, que fala sobre essa interação, e como nos reconhecemos através dos outros, acho interessante para fermentar na cabeça sobre esse assunto.
.-= Léo´s last blog ..estudos de pintura =-.
:) … … … :)
Esse é o primeiro texto que leio no seu blog.
Voce escreve mto bem!
Eu estava precisando dessa lição. Sempre meditei mas nunca havia chegado nesse ponto. Sempre achei o Vazio como sendo sinonimo de tristeza, de solidão. Mas agora vejo que não. O Vazio é apenas um passo intermediário para o que esta além. Ele, em si, não é o Fim. Estou agradecido por ter lido este texto. Ele me iluminou. Espero que meu agradecimento sincero te ilumine também em troca :)
De fato…
Faze o que tu queres, há de ser o Todo da Lei.
.-= Tiago+1´s last blog ..Cadastro no BlogBlogs ! =-.
enquanto estava lendo o texto, me lembrei dessa história do samurai, que eu já conhecia, e pensei em colocar ela aqui nos comentários, quando voilà!…ela me aparece no final do texto :)
Um monge e seus discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora do rio o escorpião o picou. Devido à dor, o monje deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem, pegou um ramo de árvore, voltou outra vez a correr pela margem, entrou no rio, resgatou o escorpião e o salvou. Em seguida, juntou-se aos seus discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados.
— Mestre, o Senhor deve estar muito doente! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda: picou a mão que o salvava! Não merecia sua compaixão!
O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu: — Ele agiu conforme sua natureza e eu de acordo com a minha.
adoro essa categoria: http://thahy.com/zen/ ^^
Touché.
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