23novo patriarca e o jaguar

A muitas e muitas eras, num lugar não tão distante… Por uma única vez…. a morte do nascimento aconteceu a um único homem… Seu nome era Tawantinsuyu.

Tawantinsuyu conhecia o caminho das quatro direções…

Ele pagava com seu próprio esforço e sempre em dobro qualquer favor que lhe fizessem e não vacilava em presentear os recém-nascidos com um pedaço de terra para que dali seus pais tirassem seu sustento…

Quando chegava a vez do recém-nascido ter um filho - ou filha - ganharia de Tawantinsuyu um pedaço de terra para  nutrir e velar pela saúde de sua nova família…

O patriarca era o único grande homem e inspirava milhares: adultos, idosos, crianças… Apesar de que… naquela época… não existiam palavras que diferenciavam adultos dos velhos e das crianças…

Mesmo com toda grandiosidade e amor sentido por Tawantinsuyu, intrigas e discussões eram frequentes em seu seio familiar: Alguns filhos acreditavam que poderiam obrigar quem possuia pouca terra a trabalhar para  a família real em troca de um título recém-criado qualquer. [desse modo, se isentariam da Lei de oferecer em dobro um favor a quem lhes prestasse auxílio] Outros – mais radicais – insistiam que a opressão pela força e a guerra eram o único modo  para se manter no poder: a bondade do patriarca não era garantia de lealdade. Aquele filho sabia como ninguém que  através da ameaça de destruição [que só o medo é capaz de gerar] eles teriam cada vez mais controle sobre seus súditos, sobre a terra que era sua por direito… Acarretando em mais poder…

Tawantinsuyu, que por ser o patriarca, se tornava a única Lei existente,  não dava ouvidos à Preguiça e a Ira de seus filhos,. Preferia seguir atravessando as quatro direções, respeitando as quatro leis existentes… Aprendendo novas nuances  que apareciam nelas todos os dias.

Numa certa noite… Dois de seus principais filhos aprisionaram o grande patriarca e o arremessaram no fundo de um poço. Para impedir que fugisse, prenderam também um jaguar faminto, alguns metros acima do nível onde  Tawantinsuyu fora aprisionado. O jaguar não alcançava o patriarca, pois uma rede de cipós e lanças o impedia de descer. O felino já tentara escalar a parede do poço, sem sucesso… De tanto arranhar a pedra bruta, o Jaguar perdeu algumas  garras e urrava de dor e as lambia com desespero.

Condenado à própria sorte,  Tawantinsuyu sentou-se no chão de pedra e pensou numa estratégia para dali escapar.

Um dia inteiro se passou.

O sol castigava sua pele e a sede corroía-lhe lentamente o céu da boca. De vez em quando…  O jaguar rugia ensaiando um salto, parecia até que arquitetava uma forma de saciar a sede de sangue e a fome de carne que atrapalhava seus instintos.

O segundo dia passou.

Tawantinsuyu com a pele castigada e ferida, continuava sentado… Só lhe restava aguardar. A noite [com suas estrelas ensolaradas] amenizava um pouco as chagas da insolação solar. O patriarca, mesmo conhecendo os encantamentos que o guiavam pelas direções aceitava humildemente o seu calvário.

Na segunda noite… contemplando o jaguar que lhe observarva, Tawantinsuyu sentiu-se imensamente feliz e grato, pois havia finalmente aprendido a última lição que estava pendente na sua jornada…  Ao observar uma pequenina haste verdejante, o Patriarca finalmente desvendou o caminho  necessário a ser trilhado através da quinta direção…  compreendeu finalmente que aquela flor só pode brotar quando a semente se permitiu morrer…

Sentindo sede, fome e muita dor advindas das feridas abertas causadas pelo deus sol – tanto o Patriarca quanto o Jaguar despertaram.

No terceiro dia, aves de rapina sobrevoavam o poço… haviam também vultos e outros animais sedentos de carne e sangue… Todos, tal como um cortejo sobrenatural rodeavam e aguardavam, na abertura do poço.

Diferentemente dos outros dias homem e animal aguardavam o momento exato do fim…

Nada mais poderia ser feito.

Tawantinsuyu – mesmo calado – conversava com o Jaguar…

Ambos compreendiam os segredos guardados nos olhos… que escondiam suas vitórias e também derrotas diante da vida. Num dado momento, daquela hora determinada… Ofuscando majestosamente todos os pequenos sóis noturnos, despontou no centro do céu uma bela lua cheia… com um beijo suave e molhado de tão prateado…  tocou a pele e o pelo de ambos…  fazendo-os adormecer…

Pela primeira vez… em toda a sua longa vida…

Tawantinsuyu e o Jaguar sonharam…

Sonharam que haviam se tornado um único ser:

as lembranças habitavam agora um único corpo.

Sentindo os sentidos aguçados, Tawantinsuyu aliou o conhecimento das direções a seguir com a força do felino e com um único salto saiu do poço que tornara-se o calvário.

O homem no corpo de jaguar [ou do jaguar com consciência de homem], posicionou-se bem na entrada do poço e naquele estranho sonho em forma de sono, olhou para baixo…  Pode distinguir dois corpos que não mais respiravam… Eram os corpos de um grande homem e um selvagem animal…

Compreendendo o que haviam se tornado… O patriarca e o felino fundiram-se eternamente num único ser… Aos poucos… por puro instinto e consciência da tarefa cumprida… esqueciam de suas vidas… Tawantinsuyu agora fundido ao Jaguar não mais despertou do sonho-sono.

Naquela mesma noite… seus filhos tremeram de desespero: Avistaram o sinal… profetizado a eras e mais eras atrás… Sinal aquele que representava a morte do nascimento do seu império. Presente nos céus:a deusa lua apresentou uma pequena chaga… que se alastrava lentamente por todo seu disco prateado… até sumir dos céus.

Uma nova era começara.

[Thahyana Valente]


  1. 1 Lia DrumondNo Gravatar23 nov 2008

    Gostei.

  2. 2 PchesiniNo Gravatar25 nov 2008

    curti tbm ^^

  3. 3 Juan AntonioNo Gravatar24 abr 2009

    lindo Thahyana…

    Juan Antonio’s escreveu recentemente: via tatielle

adoraria saber o que voce achou:




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