posts arquivados em: 'arquétipos femininos' Category

17setpai e filha

tenho visto papai envelhecer. tenho visto as costas doendo, o andar mais calmo, o sorriso menor e mais leve, o cansaço. tenho saudade do papai bravo. saudade do papai questionador. que proibia. saudade de ouvir um NÃO que me roubava xingos, virava praga e depois lágrimas. saudade das brigas, do mau-humor, do PORQUE NÃO e PORQUE SIM que pertubaram minha adolescência. saudade de questionar, espernear, e constatar que ele estava certo: A VIDA É ISSO. MAIS NADA.

tenho visto papai triste. tenho notado minha resistência em aceitar esse envelhecimento. fico desejando que ele saia cedo, volte tarde, encha-me de perguntas, questione os horários, permita e proiba – como sempre foi. tudo isso porque tenho saudade da gente no mar, de andar com os pés nos pés dele, de cantarolar no caminho para a fazenda. _ filha, declarou o imposto de renda? _ pai, você está triste? tenho saudade do papai alto, grande, lindo…

[raquel lemos]

16setmens…

sim, nossa alma menstrua. a alma fica fértil – nalgum momento, a gente é capaz de procriar. e descobre que mamãe estava errada: virar mulher não é ter cólicas nem usar absorventes. sem perceber, a gente dorme criança e encontra a calcinha da alma encharcada.

a gente vai decidindo tudo: o financiamento do carro, o armário de seis portas, aquela viagem há tanto tempo desejada… sem perceber, a gente vai aprendendo a optar, e descobrindo, aridamente, que tudo é um grande jogo de escolhas.

permitir intrusos, aceitar ofensas, abaixar a voz, engolir a mágoa, aquele filho que não fizemos, o casamento que não teremos, o porre perfeitamente escolhido, o banho quente no dia ruim. a alma menstrua, nalgum momento.

a gente se dá conta de que somos responsáveis pelo que nos causam. é dolorido, sim. a gente acorda mais molhada, mais doída, mais distante. mais serena. mais presente. no presente. de repente, acordei assim.

acendi uma vela de sete dias [nem sei se por supertição ou vontade mesmo de que as escolhas sejam iluminadas], coloquei o lixo para fora, tirei aquele cara do caminho, me perdoei pela boa esposa que não consegui ser, senti saudade de um beijo antigo e leve, vesti meu cachecol, escolhi esmalte novo, comprei pipoca com bacon, porque já não é mais possível culpar este ou aquele.

dei-me conta das limitações que são tantas. dei-me conta das escolhas erradas, repetidas vezes. dei-me conta do cansaço que me causo, do sossego que não me permito. dei-me conta de que, sem perceber, a alma menstrua.

e a gente acaba com a cólica de si mesma. do que permitimos aos outros, do que não nos permitimos. enquanto a vela queima, vou queimando decisões erradas mas no fundo, ainda alegre, porque cedo ou tarde, seria preciso que essa alma sangrasse…

[raquel lemos]

22julpenélope

Penélope é famosa por ser o retrato da mulher leal, estável e vivificada. Ao nascer, Penélope foi atirada ao mar sob as ordens do pai, Icário, que desejava um filho varão. Um bando de cisnes, de penas de cor purpura, que passavam pelo local resgataram a criança, alimentaram-na e levaram-na até a praia. Impressionado pela prodigiosa sobrevivência, Icário, arrependido, teve consciência de que a filha era especial e que teria um futuro promissor.

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14julatalante, a princesa clássica.

mitologia é uma coisa que curto por demais… simbologia então, nem se fala… tem até uma categoria no bloguinho para estas visões do mundo… como tô emergindo submergindo no universo feminino e estudando assuntos para aplicar com os grupos que pretendo organizar na casa da mulher [[trabalho da vida offline]], então achei muito “auspicioso” inaugurar uma categoria dedicada aos arquétipos femininos: formas de experimentar a vida, sentir emoções e lidar com relacionamentos…

Então, a partir de hoje… todas as terças-quartas-feiras publicarei uma história mitológica, ou uma análise psicológica a partir de um mito acerca desse universo tão bonito e complexo, que é o universo feminino.

espero que vocês curtam tanto quanto eu… e aproveitem o espaço dos comentários para manifestar opiniões, darem sugestões e pedirem alguma história… afinal, pesquisar esse assunto sempre é e será um prazer… e quanto mais informações coloco no bloguinho, mais feliz fico… [[ sim, eu sou egoista... ;) ]]

Bom, para inaugurar, uma história que mexe comigo sempre que leio e releio, presente no livro de Liz Greene e Juliet Sharman-Burke – O Tarô Mitológico, uma nova abordagem para a leitura do Tarô:

Atalante, a caçadora.

Frustrada no amor por causa dos seus ideais demasiado nobres, Atalante cujo nome significa indomável, era filha do rei Íaso, que não queria filhas. Ao nascer Atalante, ele abandonou-a nas montanhas de Calídon. A garota foi encontrada e alimentada por uma ursa enviada pela deusa Artemis-Hecate, e depois recolhida por um grupo de caçadores por quem foi criada. Ao crescer, não quis se casar e permaneceu virgem. Como sua protetora Artemis, Atalante tornou-se também caçadora, e percorria os bosques armada, sem no entanto reconciliar-se com o pai, que se negava a conhecê-la.

Atalante ficou conhecida por sua bravura e feitos heroicos, incluindo a famosa caçada ao javali de Calidon, ao lado de Melêagro. Embora o jovem heroi, filho do deus da Guerra, Ares, e melhor atirador de dardos de toda a grécia, tivesse se apaixonado por ela, Atalante recusou-se a caçar, pos não suportaria o destino de esposa. Finalmente, o pai, orgulhoso de seus feitos e de sua bravura, reconheceu-a como filha e prometeu encontrar-lhe um marido nobre. Atalante protestou, dizendo: “Pai, concordo apenas sob uma condição: que todos os pretendentes à minha mão disputem uma corrida comigo. caso-me com aquele que me vencer, caso contrário, eu o mato”. Ela era uma corça ligeira. Deixava o competidor avançar primeiro e depois o perseguia, armada com a lança. Quando o alcançava, atravessava-o com a arma. Muitos principes encontraram a morte assim, pois ela era a mais rápida das mortais. Por fim, um jovem pretendente chamado Melanion, filho de Anfidamas e primo de Atalante, pediu auxílio a Afrodite. A deusa deu-lhe três maçãs [ou pomos] de ouro, tiradas do seu santuário, e disse-lhe para atrasar Atalante durante a corrida, deixando cair um pomo por vez. E assim o jovem o fez; três vezes foi vencedor e com ela se casou. Contudo, esse casamento estava destinado a terminar tragicamente pois, mais tarde,  durante uma caçada, Melânion convenceu a esposa a fazerem amor dentro de um santuario de Zeus. Indignado com o sacrilégio, Zeus transformou-os em Leões, e, segundo os gregos, os Leões não acasalam entre si, mas apenas com os leopardos e dessa maneira os amantes nunca mais estiveram juntos.

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