tenho visto papai envelhecer. tenho visto as costas doendo, o andar mais calmo, o sorriso menor e mais leve, o cansaço. tenho saudade do papai bravo. saudade do papai questionador. que proibia. saudade de ouvir um NÃO que me roubava xingos, virava praga e depois lágrimas. saudade das brigas, do mau-humor, do PORQUE NÃO e PORQUE SIM que pertubaram minha adolescência. saudade de questionar, espernear, e constatar que ele estava certo: A VIDA É ISSO. MAIS NADA.
tenho visto papai triste. tenho notado minha resistência em aceitar esse envelhecimento. fico desejando que ele saia cedo, volte tarde, encha-me de perguntas, questione os horários, permita e proiba – como sempre foi. tudo isso porque tenho saudade da gente no mar, de andar com os pés nos pés dele, de cantarolar no caminho para a fazenda. _ filha, declarou o imposto de renda? _ pai, você está triste? tenho saudade do papai alto, grande, lindo…
[raquel lemos]






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