
[poema-presente que ganhei do hipólito em 2007 transformado num conto ]
Era uma vez uma menina muito linda que trazia no olhar restos de um sol que já se foi: Eram buracos negros e profundos que brilhavam intensos como estrelas gêmeas. Num dia não tão belo, de um mês desinteressante arrumou mais uma vez suas coisas e viajou – não numa rede ou cometa como gostaria - Acalentada pelo embalo macio e contínuo do veículo… adormeceu…
Subitamente sentiu seu músculo de amar desperto pelo ensurdecedor xilique brilhante de uma grandiosa explosão… Nunca sonhara com um clarão de luz tão intenso, branco e assustador, riscando tons de laranja salpicado de vermelho vivo: faíscas em todas as direções. Seus olhos negros engoliam cada traço daquela cena. Ela não sabia mas presenciava silenciosa o espetáculo da criação. leia [+]
Traição. Definitivamente. Aquilo de estar com ele nas mãos, entre os dedos… Uma provocação explícita à ordem das coisas. Desrespeitei a ordem das coisas. Descemos juntos. Esperamos, quietos, o momento de começar e terminar… Torcemos em silêncio para que não haja interrupções.
Engraçado isso, não? Toda traição tem os ponteiros de relógio mais apressados. Já repararam? Os segundos são mais ágeis, sacanas… não aguardam. Tem sido assim: diariamente. Eu, doida pra que o tempo não passe. E ele, ali, disponível. Foi assim, quando estive com ela também, essa ansiedade, o desejo absurdo de instantes a mais… Honestamente foi assim com todos eles…

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A noite começou bem. Divertiu-se com as amigas, com brincadeiras e risadas que só mulheres conhecem na intimidade (talvez proporcionando alguns pensamentos masculinos repletos de bobagens)
Como de costume, ele foi pontual. Conversaram bastante, tão naturais. A vida tem dessas surpresas… Afinal, pode-se viver uma vida ao lado de alguém e não se reconhecer. Por isso, estranhavam o conforto frente um ao outro. Escolheram um restaurante agradável, descobriram segredos e verdades por entre olhares e gestos (sorrisos).
Os beijos discretos rasuravam lentamente o destino planejado para a noite. ‘O meu vinho está a tua espera’ -sussurrou.
- e as cerejas?
- também… leia [+]
Tudo preparado para a surpresa que prometera.
As luzes do quarto, os ingredientes… Até o incenso que achara melhor deixar para depois. Tudo lá.
Observava-a:
Seu corpo sinuoso sibilava insinuante sob os lençóis. O olhar tão dela emitia palavras inconfessáveis ao padre ou pastor. Seus lábios e o sorriso – pecaminoso – indicavam o que desejara: O ritual.
De olhos vendados, contorcia-se de curiosidade e … [vocês sabem]. O corpo da gueixa era um campo de experimentos, com os ingredientes posicionados à altura de suas mãos. ‘Sorvete, primeiro’ – pensou maldoso.
Com a boca, instigou seus lábios – a língua quente, úmida derretera todo o sorvete ao lambê-la. A respiração ofegante o excitava. A ter presa daquela forma era tudo que desejara – não confessaria tão cedo, claro.
Pausa.
Observa.
O corpo contrai-se, o desejo percorre cada espaço de sua pele num arrepio que ouriçava-lhe as quentes carnes. O cheiro do incenso era especialmente provocante. Sua respiração profunda e suas pernas dançavam um balé privado particularmente erótico. ‘Eros…morangos, agora’. Levara um morango maduro e doce até seus lábios.
‘Gulosa’ – excitava-se – ‘Vejamos o que mais ela sabe fazer. Lambuzara o morango na calda de sorvete explorando seus sentidos. Lambera sua pele doce e macia. Sua boca mordiscava a fruta com uma cara de imenso prazer. ‘Vinho…Morango e vinho tinto’- ela sugou a fruta imersa em sua bebida favorita. Ele controlara-se até então.
Pausa.
Observa.
Inundada por seus sentidos e sentindo sua falta, tentou tirar a venda. Rapidamente sentiu ambas as mãos contra o colchão. Aquilo definitivamente era novidade… ‘Então és realmente forte’ – provocara com sua voz insinuante.
Leite condensado – último ingrediente. Cedeu. Era hora de receber sua gratificação. Desvendou-a – cada centímetro. Enlouqueceu-se – cada milímetro. Calou-se – num urro de prazer. Mudo, deitou-se. ‘Um banquete completo em minha cama’ – adormeceram.
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