15marteologia

Teologia/ 1


O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava.

Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E, em todo caso – penso – se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis turistas da classe média; e no final das contas, se fará justiça.

Sinceramente: merecer, mereço. Nunca matei ninguém, é verdade, mas por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos domingos, nem nos dias de guarda. Cobicei quase todas as mulheres de meus próximos, exceto as feias, e assim violei, pelo menos em intenção, a propriedade privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás a mulher de teu próximo nem seu touro, nem seu asno… E como se fosse pouco, com premeditação e deslealdade cometi o ato do amor sem o nobre propósito de reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora.

Teologia/ 2


O deus dos cristãos, Deus da minha infância, não faz amor. Talvez o único deus que nunca fez amor, entre todos os deuses de todas as religiões da história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por ter sido meu super-pai castigador, chefe de polícia do universo, e penso afinal que Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e acreditava que Ele acreditava em mim. Então preparo a orelha, na hora dos rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer e subir da noite, e acho que escuto suas melancólicas confidências.

Teologia/ 3


Errata: onde o Antigo Testamento diz o que diz, deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou:

Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que eu não soube me fazer entender. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura, construção e acabamento. Eles não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu… bem, eu talvez não estivesse preparado para falar. Antes de Adão e Eva, nunca tinha falado com ninguém. Eu tinha pronunciado belas frases, como “Faça-se a luz”, mas sempre na solidão. E foi assim que, naquela tarde, quando encontrei Adão e Eva na hora da brisa, não fui muito eloqüente. Não tinha prática.

A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general que acaba de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os dois estavam incrivelmente jovens e belos e radiantes. Me surpreenderam. Eu os tinha feito; mas não sabia que o barro podia ser tão luminoso.

Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro a dignidade da desobediência. Tampouco posso conhecer a ousadia do amor, que exige dois. Em homenagem ao princípio de autoridade, contive a vontade de cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.

Então, vieram os equívocos. Eles entenderam queda onde falei vôo. Acharam que um pecado merece castigo se for original. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam vale de lágrimas. Eu disse que a dor era o sal que dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.

Ultimamente ando com problemas de insônia. Há alguns milênios custo a dormir. E gosto de dormir, gosto muito, porque quando durmo, sonho. Então me transformo em amante ou amanta, me queimo no fogo fugaz dos amores de passagem, sou palhaço, pescador de alto mar ou cigana adivinhadora da sorte; da árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão…

Quando acordo, estou sozinho. Não tenho com quem brincar, porque os anjos me levam tão a sério, nem tenho a quem desejar. Estou condenado a me desejar. De estrela em estrela ando vagando, aborrecendo-me no universo vazio. Sinto-me muito cansado, me sinto muito sozinho. Eu estou sozinho, eu sou sozinho, sozinho pelo resto da eternidade.

[eduardo galeano - o livro dos abraços]

12marequação

Através do amarelo antigo e da sua psicológica tradução em tempo – um sentimento, uma noção doce e alarmante – a Velha Avó, nas circunstâncias um corpo jovem subtilmente inclinado para a frente, atento à própria força, a Velha Avó jovem sai das esquadrias que a delimitaram, e irrompe para além desse Verão exaltado. Bate-me em cheio. Bate em mim, junto à cama, em mim que assisto a um tempo bem actual, à fluente e temível demonstração do corpo que continuou o movimento. Para diante, para diante. Rompendo as ficções do estatismo, o mito incomportável das fotografias.

– Avó…

Ela está na cama de madeira escura, uma avó que enche um minúsculo volume de colcha branca lavrada; e do pescoço para cima, uma avó cor de limão, cor de azeitona. Uma avó de dois braços pela colcha branca abaixo, e as mãos saindo das mangas claras e amarrotadas do casaco de lã. Mãos cor de azeitona, duras, imóveis. Vamos: podres. Duas mãos podres. E tudo isto – que é o pouco do presente, com um significado de súbito espantoso na minha própria carne – está no meio da penumbra do quarto, enquanto lá fora o mês quente se desenvolve, atormentado por uma excessiva firmeza vital, mês feroz, com a sua atmosfera de violência luminosa. É fascinante para mim poder dar alguns passos entre a fotografia (sobre a cómoda) e a enorme cama negra – eu que compreendo alguma coisa (e com que abalo!), procurando sorrir quando a Velha Avó ergue as pálpebras e me fixa não sei entre que hesitações de torpor e vigilância. Sorriso sem experiência, o meu. Porque não sei como está aqui essa fotografia e este corpo. E não sei do mesmo modo quase nada acerca do corpo das pessoas, o seu tempo, os tempos, a verdade. E depois, como se o sorriso com a sua inépcia não fosse bastante sinal da minha confusão, eu digo numa voz ainda mais inexperiente:

– Avó… (…)

A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:

– É tudo mentira…

Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas – fulgurante e estúpida.

Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido – ele! – de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.

A Avó morreu nesse mesmo dia.

[herberto helder]

[a minha, no caso...morreu na madrugada de terça. as duas da manhã]

12maros ninguéns

as pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguém com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

os ninguéns: os filos de ninguém, os donos do nada.

os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

que não são, embora sejam.

que não falam idiomas, falam dialetos.

que não praticam religiões, praticam supertições.

que não fazem arte, fazem artesanato.

que não são seres humanos, são recursos humanos.

que não tem cultura, e sim folclore.

que não tem cara, tem braços.

que não tem nome, tem número.

que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

os ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.

[eduardo galeano - o livro dos abraços]

ei, bestão: os ninguéns somos eu e você, oquei?

08maré preciso ser sério

“Ser adulto é torna-se sério. E a coisa precisa ficar séria”

- susserei baixinho… para mim mesma… ao pé da cama.

Eu sou e me sinto muito sozinha, mas nunca estou só. Sempre estou acompanhada por você, por ele, pelo desconhecido que cruza meu caminho às duas e dezessete da tarde de uma quarta-feira de um mês qualquer.

Tenho amigos, tenho amigas. Mas o que define fulano ou sicrana como alguém que realmente se interessa pelas minhas histórias e vice-versa? É o destino, o acaso ou uma variável contingencial dentro de uma matemática invisível?

leia [+]

07marolha só

de agosto de 2006 a setembro de 2009 usei o cabelo sempre muuuito curtinho.

mas… ‘um belo dia decidi mudar’… vamos ver até onde aguento mante-lo comprido…




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